“Sites da dopamina” chegam ao Brasil e prometem prazer sem compras, mas especialistas alertam para riscos
Uma nova tendência da internet, conhecida como “sites da dopamina”, começa a ganhar espaço no Brasil ao oferecer uma experiência inusitada: permitir que o usuário simule compras sem gastar dinheiro. A proposta é reproduzir toda a jornada de consumo — da escolha do produto ao acompanhamento da entrega — para gerar a sensação de satisfação associada às compras.
A ideia surgiu na Coreia do Sul e já conta com diferentes versões. Há plataformas que simulam lojas virtuais, aplicativos de delivery e até apostas esportivas, sem que a transação seja concluída. Segundo especialistas, o mecanismo explora a expectativa da recompensa. “A dopamina não é o neurotransmissor do prazer, mas da antecipação do prazer. O simples ato de procurar e escolher já ativa esse sistema”, explica o neuropsicólogo Renato Villela Gallo, pesquisador da USP.
No Brasil, uma das plataformas se apresenta como uma ferramenta para ajudar pessoas com compulsão por compras. O usuário pode escolher produtos, preencher um carrinho virtual e acompanhar uma falsa entrega. No entanto, para concluir a simulação, o site solicita dados como nome, endereço, telefone e CEP. Em alguns casos, também exibe opções de pagamento via Pix, cartão e boleto, o que levanta preocupações sobre segurança digital.
Para Victor Azevedo, reitor do Ibmec Rio, o principal risco está justamente na coleta de informações pessoais. “Quando um serviço é gratuito, muitas vezes o produto é o próprio usuário. Os dados pessoais têm alto valor e podem ser utilizados de diferentes formas”, afirma. O especialista também alerta para o uso de QR Codes e páginas que podem induzir o consumidor a realizar pagamentos desnecessários.
Além dos riscos relacionados à privacidade, especialistas em comportamento afirmam que esse tipo de plataforma pode reforçar hábitos compulsivos, principalmente entre adolescentes e pessoas que já apresentam dificuldades para controlar o consumo. Segundo Renato Gallo, a sensação de recompensa obtida na simulação não trata a compulsão, apenas transfere o comportamento para o ambiente digital. A recomendação é estabelecer limites para o uso das telas, investir em atividades fora do ambiente virtual e procurar acompanhamento psicológico quando o comportamento começar a afetar a rotina.