Crime organizado recruta estudantes de medicina para contrabandear canetas emagrecedoras do Paraguai
A Receita Federal tem identificado um aumento no recrutamento de estudantes brasileiros de medicina que estudam no Paraguai para o transporte ilegal de canetas emagrecedoras destinadas ao mercado brasileiro. O esquema tem se concentrado principalmente na região de Ciudad del Este, cidade que abriga milhares de universitários brasileiros.
No último dia 25, dois estudantes de medicina foram presos em flagrante ao tentar ingressar no Brasil pela Ponte da Amizade transportando medicamentos à base de tirzepatida. Um dos universitários carregava parte da carga presa ao corpo com fita adesiva, enquanto a outra estudante escondia os produtos em uma bolsa e em peças de roupa.
Segundo a fiscalização, os dois transportavam 200 caixas do medicamento, cada uma contendo quatro ampolas. A carga está avaliada em cerca de R$ 86 mil no mercado paraguaio. No Brasil, produtos da mesma substância podem ultrapassar R$ 3 mil por caixa, o que torna o contrabando altamente lucrativo.
De acordo com a Receita Federal, estudantes passaram a integrar as chamadas “formigas do contrabando”, responsáveis por atravessar a fronteira com pequenas quantidades de medicamentos. Após a entrada no país, os produtos são reunidos e distribuídos por organizações criminosas para abastecer o mercado clandestino em estados como São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
O chefe da Aduana da Receita Federal na Ponte da Amizade, Daniel Messias Linck, afirma que muitos universitários são aliciados por organizações criminosas e nem sempre têm plena consciência da gravidade do crime. Segundo ele, existe uma percepção equivocada de que trazer medicamentos do Paraguai não configura contrabando.
Os números refletem o avanço do esquema. Em todo o ano passado, foram apreendidas 7.479 canetas e ampolas de tirzepatida na região de Foz do Iguaçu. Apenas neste ano, as apreensões já ultrapassaram 71 mil unidades, um aumento superior a 860%.
A grande presença de brasileiros nas faculdades paraguaias contribui para o cenário. Dados do Ministério das Relações Exteriores apontam que cerca de 35 mil dos 45 mil estudantes matriculados em cursos de medicina no Paraguai são brasileiros. O país vizinho atrai universitários pelos custos mais baixos, com mensalidades que giram em torno de R$ 2 mil, valor muito inferior ao cobrado por instituições privadas brasileiras.
Casos semelhantes vêm sendo registrados em diferentes estados. Em fevereiro, um estudante de medicina foi preso transportando 462 canetas emagrecedoras entre o Paraná e o interior de São Paulo. Segundo a polícia, ele receberia R$ 6 mil pelo serviço. Em Mato Grosso do Sul e no Paraná, outras estudantes também foram detidas neste ano por suspeita de comercializar ou divulgar medicamentos contrabandeados nas redes sociais.
As investigações apontam que o crescimento da demanda por medicamentos para emagrecimento, aliado à diferença de preços entre Brasil e Paraguai, tem impulsionado a atuação de organizações criminosas na fronteira e ampliado o recrutamento de universitários para o transporte ilegal dos produtos.