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MEMÓRIA

Em Tabuleiro dos Negros, Cortejo do Bulba transforma ruas em caminhos de memória e celebração

Marianna Carvalho

O som da banda anuncia a chegada, as portas se abrem, as crianças se aproximam e, pouco a pouco, a rua ganha outros movimentos. Tem música, dança, brincadeira, ancestralidade e troca com os moradores. Foi assim que o Cortejo do Bulba encontrou seu caminho, em sua terceira parada, na comunidade quilombola Tabuleiro dos Negros, em Penedo.

Realizado no último sábado (10), o terceiro cortejo do Festival Primavera Cultural transformou a rua principal do povoado em espaço de encontro entre arte, memória e comunidade. Junto ao Bulba, personagem que dá identidade ao cortejo, os brincantes e a banda levaram alegria às portas das casas, enquanto moradores se reuniam para assistir, registrar e, em alguns momentos, entrar na dança.

Para além da passagem de um cortejo, a experiência representou uma aproximação com um território de histórias, vínculos e saberes próprios. A escolha de Tabuleiro dos Negros não aconteceu por acaso: nasceu de uma relação construída anteriormente por meio de uma pesquisa sobre a comunidade, que aproximou a equipe do festival dos moradores e de suas histórias.

“Essa edição do Cortejo do Bulba, no Tabuleiro dos Negros, povoado quilombola do município de Penedo. E a escolha dessa localidade partiu de uma retribuição pelo fato de a comunidade ter nos abraçado em outro projeto de pesquisa que levamos para lá”, explica Anderson Barros, diretor de projetos e idealizador do Primavera Cultural.

A aproximação permitiu conhecer de perto a associação, as trajetórias dos moradores e as manifestações que integram a vida cultural do povoado. Para Leonardo Dias, diretor-executivo da OXE Produções, responsável pela realização do festival, retornar à comunidade com o cortejo foi uma forma de dar continuidade a essa relação.

“Foi ótimo, maravilhoso! Nossos brincantes, junto com o Bulba e a banda, fizeram a alegria da comunidade. A melhor coisa é quando a comunidade e as crianças vão para a porta. A gente sempre para, brinca com as crianças, dança com as pessoas da comunidade também, tira fotos”, conta Leonardo.

A imagem do cortejo chegando às casas traduz parte da proposta do festival: levar a cultura para além dos grandes centros e criar oportunidades para que diferentes públicos tenham contato direto com as manifestações artísticas. Em Tabuleiro dos Negros, esse encontro aconteceu sem palco ou plateia delimitada. A rua foi o lugar da festa, e os moradores, parte fundamental dela.

O encontro da cultura com quem a mantém viva

A relação com a comunidade também esteve presente na programação da manhã. A atividade formativa desta parada aconteceu em formato de workshop e troca de saberes, com a pesquisadora Anna Kelmanny da Silva Araújo, responsável pela capacitação Cultura, Identidade e Território, e integrantes da comunidade.

A proposta dialoga com a própria história de Tabuleiro dos Negros, onde memória, identidade e pertencimento atravessam a construção coletiva do território. A formação não apresentou apenas conceitos, ela abriu espaço para compartilhamento de conhecimentos e reflexão sobre as manifestações culturais que ajudam a contar a história de um povo.

Para Anderson, realizar atividades como essa em comunidades afastadas dos grandes centros é parte essencial da missão do Primavera Cultural.

“O festival vem com a missão de democratizar e florescer a cultura por onde passa e é um direcionamento nosso para estarmos fora dos grandes centros, levando a cultura de fato para quem necessita”, afirma.

Durante o cortejo, essa aproximação ganhou ainda outro significado com a participação de Nicole, integrante do grupo de coco de roda da comunidade, que ajudou a abrir caminho para os brincantes. Sua presença aproximou a programação das expressões culturais que já existem no território, fazendo com que o encontro não fosse apenas uma apresentação para os moradores, mas também uma oportunidade de reconhecer quem produz cultura ali.

Anderson destaca que a equipe voltou a perceber algo que tem marcado as paradas do Bulba: a alegria de quem vê essas manifestações de perto, muitas vezes pela primeira vez.

“Mais uma vez conseguimos alcançar o público que, por muitas vezes, só vê essas manifestações pelas telas do celular. Perceber o sorriso deles vendo que estávamos ali por causa deles foi algo que nos marcou muito”, relata.

O brilho nos olhos de quem acompanha

Entre os personagens que deram vida à tarde estava a Cachorra da Palmeira, um dos folguedos do cortejo, interpretado pela atriz alagoana Joana Dark, de Arapiraca. Ao lado dos demais brincantes, do Bulba e da banda, ela tem a missão de espalhar música, dança e brincadeiras pelas cidades que recebem o festival.

Para Joana, a experiência em Tabuleiro dos Negros foi especialmente marcante pela maneira como os moradores se aproximaram do cortejo.

“As pessoas ficavam nas portas nos assistindo, sinalizando, gravando. Algumas vieram para o cortejo para dançar, para seguir com a gente. As crianças brincavam, cantavam.

Foi um momento realmente inesquecível”, conta.

A artista diz que é justamente nessa troca que encontra o sentido de participar do projeto: perceber a reação de quem acompanha, ver as crianças dançando e sentir que a presença dos brincantes desperta algo em quem está do outro lado.

“Tem sido uma experiência muito boa, muito importante. O festival tem muito disso, de levar essa cultura, de trazer essa energia bacana, essa troca entre quem está nos assistindo, quem está dançando com a gente e quem está ali seguindo o cortejo, brincando com o nosso Bulba”, afirma.

Ao longo do percurso, o que poderia ser apenas uma apresentação se transforma em convivência. Os personagens param, interagem, dançam e compartilham o momento com quem se aproxima. A cultura deixa de ser algo distante e passa a ocupar o cotidiano, ainda que por algumas horas.

Para Joana, o festival também deixa marcas por onde passa.

“A nossa missão principal é realmente espalhar a cultura por onde passamos, com o nosso gato místico. [...] O Festival Primavera Cultural é exatamente isso: passar pelas ruas das cidades, deixar a nossa marca, levando a cultura e fazendo com que ela floresça cada vez mais”, diz.

Um caminho que continua a florescer

O Cortejo do Bulba integra a edição de 2026 do Festival Primavera Cultural, que percorre dez municípios alagoanos com uma programação que combina formação, manifestações populares e encontros com as comunidades. O projeto tem como homenageado Mestre Biribinha, nome artístico de Teófanes Silveira, Patrimônio Vivo de Alagoas e reconhecido pela Funarte como Mestre das Artes Brasileiras.

A cada parada, o festival encontra novas histórias, artistas e expressões culturais. O estandarte, os personagens e a música seguem viagem, mas o que acontece em cada lugar dá ao cortejo uma identidade própria. Na Ilha do Ferro, em Pão de Açúcar, a experiência foi marcada pela criatividade e pela arte popular. Em Delmiro Gouveia, a cultura foi ao encontro dos moradores nas calçadas e varandas. Em Tabuleiro dos Negros, o encontro ganhou a força da memória quilombola e da relação construída com a comunidade.

Para Leonardo Dias, a proposta também passa pela possibilidade de estimular a cultura local e fortalecer os vínculos que já existem nos territórios.

“Conectar e tentar ativar a cultura também nesses locais, tentar reativar a cultura local, é importantíssimo como uma missão desse projeto”, destaca.

Depois de três paradas, o Bulba segue viagem com novas histórias para encontrar. A próxima será em Arapiraca, em novembro, cidade ligada à trajetória da equipe que idealizou o festival e que promete um encontro especial com o território de onde parte o projeto.

Em Tabuleiro dos Negros, ficam as imagens de quem esperou nas portas, das crianças que dançaram junto e dos moradores que abriram espaço para a música passar. Fica também a lembrança de que a cultura não precisa de grandes estruturas para acontecer: às vezes, basta uma rua, uma banda, personagens dispostos a brincar e uma comunidade pronta para acolher.

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