‘Modelo Bukele’ não seria capaz de derrotar PCC e CV no Brasil, diz especialista
O modelo de segurança adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tornou-se uma das principais bandeiras da direita latino-americana e passou a ser defendido por presidenciáveis brasileiros como Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). Apesar da forte redução dos homicídios em El Salvador, o cientista político Robert Muggah avalia que a estratégia não poderia ser simplesmente reproduzida no Brasil.
Especialista em segurança pública e um dos fundadores do Instituto Igarapé, Muggah destaca diferenças entre as organizações criminosas dos dois países. Segundo ele, PCC e Comando Vermelho possuem estruturas mais sofisticadas, presença internacional e atuação em diferentes mercados ilícitos, enquanto MS-13 e Barrio 18, de El Salvador, são grupos mais territorializados.
“Prender em massa integrantes do PCC como se fez com a MS-13 é muito mais difícil por causa da distribuição da facção brasileira tanto no mercado doméstico quanto no internacional”, afirmou. Para o especialista, PCC e CV se aproximam mais de “multinacionais” do crime, com redes financeiras, tráfico internacional e estruturas de governança próprias.
O modelo de Bukele ganhou força após a adoção, em 2022, de um regime de exceção que ampliou os poderes do Estado, permitiu prisões em massa e restringiu garantias processuais. A política foi acompanhada de uma forte queda nos homicídios, mas, segundo Muggah, também provocou consequências graves para direitos civis, sistema judicial, prisões e instituições democráticas.
No Brasil, a dificuldade seria ainda maior. O país é continental, federativo e possui dezenas de facções, milícias e grupos regionais. Além disso, a segurança pública está majoritariamente sob responsabilidade dos estados. Para Muggah, uma política eficaz precisaria combinar inteligência, prisões direcionadas, investigação financeira, controle de fronteiras, reforma prisional e prevenção ao recrutamento de jovens.
O especialista também alerta que o encarceramento em massa pode fortalecer o próprio crime organizado. PCC e CV nasceram dentro do sistema prisional e ainda exercem influência sobre presídios.
Para Muggah, experiências como as de Bogotá, Medellín, São Paulo e Minas Gerais mostram que é possível reduzir a violência com políticas baseadas em inteligência, atuação concentrada em áreas críticas e programas sociais de longo prazo. “Não existe uma bala de prata”, afirmou. Para ele, copiar Bukele sem considerar as diferenças brasileiras poderia produzir efeitos negativos sobre a segurança e a democracia.