Renan Santos repete Enéas com ideia de bomba atômica
Candidato do Missão retoma proposta defendida pelo ex-presidenciável Enéas Carneiro e reacende debate sobre armas nucleares no Brasil
A proposta de construir uma bomba nuclear no Brasil, defendida pelo candidato à Presidência Renan Santos (Missão), recupera uma bandeira que já marcou campanhas eleitorais do país. Na década de 1990, o médico Enéas Carneiro, fundador do Prona e candidato à Presidência em 1989, 1994 e 1998, defendia abertamente que o Brasil desenvolvesse uma arma nuclear como instrumento de dissuasão.
A discussão sobre um programa nuclear militar brasileiro, porém, remonta à ditadura. Em 1986, reportagem de Elvira Lobato revelou que a Aeronáutica havia construído, na Serra do Cachimbo, no Pará, um poço de 320 metros com características compatíveis com testes nucleares subterrâneos.
Décadas depois, Renan Santos voltou a defender a ideia. O candidato já afirmou ser favorável ao desenvolvimento de uma arma nuclear e à saída do Brasil de tratados que impediriam essa possibilidade. Nesta quarta-feira (26), ele reafirmou a posição durante entrevista à Globo, classificando a medida como necessária para garantir a soberania nacional.
A proposta também encontra respaldo dentro do próprio partido. Em outubro de 2025, o deputado Kim Kataguiri apresentou uma PEC para permitir a produção de armas nucleares pelo Brasil com finalidade de dissuasão e defesa da soberania.
O tema, entretanto, enfrenta fortes barreiras jurídicas e diplomáticas. A Constituição estabelece que atividades nucleares em território nacional devem ter fins pacíficos. Além disso, o Brasil é signatário do Tratado de Tlatelolco, que estabelece a América Latina e o Caribe como zona livre de armas nucleares, e do Tratado de Não Proliferação Nuclear.
Defensores da proposta argumentam que armas nucleares funcionam como instrumentos de dissuasão e citam países como Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. A invasão da Ucrânia também fortaleceu, entre alguns analistas, o argumento de que países sem armas nucleares podem ficar mais vulneráveis diante de potências que as possuem.
Por outro lado, críticos consideram a proposta perigosa e desnecessária. O Brasil não possui potências nucleares hostis em suas fronteiras e mantém tradição diplomática voltada ao multilateralismo e à solução negociada de conflitos.
A eventual decisão de abandonar os compromissos internacionais e alterar a Constituição provocaria forte reação externa e abriria uma crise diplomática de grandes proporções. A bandeira que já foi associada à figura de Enéas agora retorna ao debate eleitoral pelas mãos de Renan Santos e pode ganhar espaço na corrida presidencial de 2026.