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RELATOS!

Funcionários da Voepass relatam pressão para manter aviões em operação antes de acidente

Depoimentos à Polícia Federal apontam cobranças para evitar atrasos e liberar aeronaves mesmo diante de problemas técnicos; queda em Vinhedo matou 62 pessoas

Peter Lucca

Depoimentos reunidos pela Polícia Federal (PF) na investigação sobre a queda do avião da Voepass, em Vinhedo (SP), apontam relatos de pressão interna para manter aeronaves em operação mesmo diante de problemas técnicos. O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024 e deixou 62 mortos.

O relatório final do inquérito, concluído na quinta-feira (6), reúne 35 depoimentos de pilotos, mecânicos, coordenadores e ex-funcionários da companhia. O documento será analisado pelo Ministério Público Federal (MPF), que decidirá se apresenta denúncia à Justiça. Ao todo, 16 funcionários e ex-funcionários foram indiciados pela PF.

Entre os relatos está o do engenheiro aeronáutico e ex-coordenador de manutenção Alex de Souza Leandro. Segundo ele, havia pressão para recolocar aeronaves em operação rapidamente. “A pressão existia, porque eles queriam que se liberasse a aeronave”, afirmou. Alex disse ainda que discutia com gestores quando se recusava a liberar aviões fora dos procedimentos previstos nos manuais. Apesar disso, declarou que nunca recebeu orientação para deixar de registrar falhas.

O auxiliar de manutenção Guilherme Pereira também relatou cobranças para evitar que aeronaves permanecessem paradas. Segundo ele, a pressão vinha da diretoria e chegava aos pilotos e mecânicos por meio das chefias. “Ela não queria ver avião parado, ela queria avião voando”, afirmou. Guilherme disse ainda que, em alguns casos, problemas eram registrados apenas na base seguinte para evitar que o avião permanecesse em solo.

A perícia do Instituto Nacional de Criminalística (INC) apontou indícios de falhas sucessivas no sistema de degelo da aeronave em voos anteriores ao acidente, além da ausência de registros formais dessas ocorrências. O laudo também identificou indícios de uma cultura organizacional de normalização de desvios operacionais.

Em nota, a Voepass afirmou que “adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)”. A empresa disse ainda que aguardará os próximos desdobramentos do processo e, se necessário, exercerá seu direito de defesa.

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