25 de fevereiro de 2026
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Cármen Lúcia diz que Brasil vive “canto sem encanto” e questiona: “Quantas Marielles ainda?”

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi a terceira a votar no julgamento dos cinco acusados de planejar o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Entre os réus estão Domingos Brazão, conselheiro do TCE-RJ; seu irmão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão; e o delegado Rivaldo Barbosa, ex-chefe de Polícia Civil do Rio. Ao iniciar o voto, a ministra afirmou que o país segue sendo “um canto do Brasil sem encanto”.

Ela fez referência ao julgamento do chamado “gabinete do ódio” e comparou ao que definiu como “escritório do crime”. Em seguida, lançou a pergunta que marcou a sessão: “Quantas Marielles o Brasil permitirá que sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de Justiça nesta pátria de tantas indignidades?”. Também mencionou os filhos das vítimas e cobrou que o Estado de Direito se imponha de forma concreta.

Ao abordar o contexto do crime, Cármen Lúcia apontou a presença de machismo e racismo. Segundo ela, mulheres, especialmente mulheres negras que ocupam espaços de poder, são vistas mais como coadjuvantes do que como sujeitos plenos de direitos. “Matar uma de nós é muito mais fácil”, afirmou. Dirigindo-se à mãe da vereadora, declarou que a dor não é individual, mas coletiva.

A ministra classificou a atuação das milícias como um “feudalismo criminoso” que afronta a soberania nacional, sustentado por interesses econômicos, eleitorais e políticos. Para ela, a corrupção é o elemento central do caso e representa a maior ameaça à convivência democrática.

Em tom emocionado, disse que o processo lhe causou sofrimento espiritual, psicológico e físico. Ressaltou, porém, que a Justiça humana não é capaz de apaziguar a dor das famílias e que o julgamento é apenas a resposta possível do Direito diante de uma tragédia que expôs as fragilidades institucionais do país.